segunda-feira, 21 de agosto de 2017



e haverá um tempo para amar e outro para encontrar as distâncias esquecidas. Sim. Alguma vez. Quando os rostos dos outros não me derem a medida exata da solidão

Alejandra Pizarnik

domingo, 20 de agosto de 2017


parem
eu confesso
sou poeta 

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face 

parem
eu confesso
sou poeta 

só meu amor é meu deus 

eu sou o seu profeta 

Paulo Leminski



da pele



Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre
de uma mulher, remou nela,
naufragou
e sobreviveu numa das suas praias.

Cristina Peri Rossi, Bitácula



não morro de amores
por pessoas sem mistério
quando se é muito transparente
muito risonho e educado
é raro ser levado a sério
prefiro os mais silenciosos
os que abrem a boca de menos
os mais serenos e mais perigosos
aqueles que ninguém define
e que sempre analisam os fatos
por um novo enfoque
prefiro os que têm estoque
aos que deixam tudo à mostra na vitrine.

Martha Medeiros




Loucura esta
o instante
em que me perco no teu corpo

Fátima Guimarães



Entro no teu corpo árvore
felina
como quem visita um templo
vegetal uma ilha impregnada
pelas especiarias mais raras
do sol e do mar. Ascendo em bocas
que bebem a minha seiva em dunas
que me lavam e queimam
humildes. Armas tão frágeis
as que temos: o mel a saliva o
sêmen. Caminho
na luz obscura
com as mãos vazias
de quem nasce de novo. 

Casimiro de Brito


LIÇÃO DE GEOGRAFIA



Repare o tempo em qualquer parte
e deixe o toque ouvir cada momento.
Tire a luva invisível
e sinta sob a máscara invisível do meu rosto
o gosto que eu fiz para você
durante todo o tempo:
    de esperas
    de segredos
    de medos
    de recuos, desencontros, desesperos

(em suma, de desejos).

Releve a ruga, a barba por fazer e algum cabelo branco
(brinque-me.
 Pela janela, além da brisa, só a noite).

Pare no meu queixo e aí queira a sua boca.
Só não deixe que um beijo lhe sacie,
lhe baste,
porque um beijo rouba a história de outros beijos
e eu quero do beijo o motivo
vivo
porque sou feito de ânsias, de antes, nunca de depois
(e eu com essa cara de depois...).


Toque-me os ombros,
mas não tire o peso que imagina que eu carregue.
Todo o peso eu trago nos olhos
 —testemunha dos instantes em que você não veio.

Experimente as minhas mãos.
Aqui o aparente frio me desmente.
queimando, ainda, o cheiro da sua.

Mire-me os olhos 
e deixe-me ficar.

E essa brisa eu já nem sei se é de mim quando respiro
ou de você quando se vai.


Antoniel Campos

E eu me visto de saudades
do que já não somos nós

Leoni





feroz, selvagem, arisca
como toda fera
às vezes até cruel
busca chegada de uma primavera
em minha vida
minha maldita querida
meu mel.

 Bruna Lombardi



Meu corpo arde, ferve - chama-te 
Esta tarde vou morrer de febre 
incendiar a cama, as vestes 
virar tocha humana! 


Líria Porto



sábado, 19 de agosto de 2017



Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora, É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono. 

Machado de Assis, Crisálidas



a boa dieta


Carlota dissera ao doutor
Que lhe agradava, de manhã, fazer amor,
Embora à noite a coisa fosse mais sadia.
Sendo ela prudente, resolveu
Fazê-lo duas vezes ao dia:
De manhã, por prazer
De noite, por dever.

Friederich Von Logau 




Ouve como o silêncio
Se fez de repente
Para o nosso amor

Horizontalmente...

Crê apenas no amor
E em mais nada
Cala; escuta o silêncio
Que nos fala
Mais intimamente; ouve
Sossegada
O amor que despetala
O silêncio...

Deixa as palavras à poesia...




Vinicus de Moraes




"Para que serve a literatura? Para não morrer de desespero num mundo de ignorância e perversão".

Philippe Sollers