domingo, 1 de janeiro de 2017

Sexo é Brinquedo



''Ninguém sabe direito como usar o sexo, o que fazer com ele. Pra maioria das pessoas, sexo é um brinquedo: é só dar corda e deixar rolar."

Charles Bukowski



Sentia-se apaixonado como pela primeira vez. Diante da face dela o mundo inteiro parecia-lhe supérfluo. Não conseguia deixar de a olhar e quando não estava na sua presença de a imaginar na sua presença.

Pedro Paixão,  Quase Gosto da Vida Que Levo





O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.
As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.
E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

Carlos Drummond de Andrade

já aconteceu



Eles mal piscaram, mas já aconteceu a transa.

Ainda nem se conhecem, mas já aconteceu a transa.

Ainda nem se abraçaram, mas já aconteceu a transa.

Não beberam juntos, não dançaram juntos, não jantaram juntos, mas já aconteceu a transa.

Não houve nenhuma saudade, desconforto, receio de se perder e já aconteceu a transa.

Não houve nenhuma confissão, partilha de memória, declaração apaixonada, e já aconteceu a transa.

Ainda não mostraram o jeito de vestir, não ensaiaram a nudez, mas já aconteceu a transa.

Eles nem supõem se um é colorado ou gremista, se um é anarquista ou conservador, se é rico ou endividado, se dança rock ou pagode, se tem filhos ou não, se foram casados ou guardados, se têm amigos em comum, mas já aconteceu a transa.

Nada pode apagar o fato consumado antes dos fatos.

O olhar é premonitório, existe uma confiança por detrás do gesto que garante que já aconteceu a transa.

Não há como impedir a união, ambos se escolheram muito rápido.

Denunciaram o enlace ao mexer os cabelos, ao sorrir encabulado, pondo as mãos no bolso.

Foi uma provocação que vingou, foi uma graça que levantou o humor, foi uma cumplicidade que declarou o início.

É assim mesmo que acontece: definimos com quem teremos o envolvimento antes do envolvimento. A atração manda no futuro.

Não significa que vão namorar, casar, serem felizes, não há estabilidade garantida pelo desejo. A curiosidade eclodiu e suspenderá os pré-requisitos, os impeditivos, os critérios preventivos.

É o instinto definindo a ação, avisando o inconsciente que a transa já aconteceu.

A transa é uma lembrança que antecede o ato.

É uma determinação de gosto que impregna a palavra. A transa está no passado, mesmo quando parece uma possibilidade remota.

Eles não se tocaram, mas já se cheiraram, já se estudaram rapidamente, já se aprovaram, já facilitaram os caminhos.

Ainda nem sabem o nome um do outro, as convicções, os medos e desejos, mas já aconteceu a transa.

Ainda não têm noção se preferem sushi ou churrasco, se são melancólicos ou ansiosos, arrebatados ou inseguros, mas já aconteceu a transa.

Ainda não se adicionaram no Facebook, mas já aconteceu a transa.

Ainda não salvaram os telefones na agenda, mas já aconteceu a transa.

Definiram pelo olhar que vão transar. Só não marcaram a data.

Publicado no jornal Zero Hora
Revista Donna, p.6
Porto Alegre (RS), 22/12/2013 Edição N° 17652

A tua boca. A tua boca.
Oh, também a tua boca.
Um túnel para a minha noite.
Um poço para a minha sede.



Os fios dormentes de água
que a tua língua solta num grito cor de rosa
e a minha língua sorve e canta
e os meus dentes mordem derramando a seiva
da tua primavera sem palavras
o poema inquieto e livre que a tua boca oferece
à minha boca.



As loucas bebedeiras de ternura
por essa viagem até ao sangue.
Os beijos como fogueiras.
As línguas como rosas.

Oh, a tua boca para a minha boca.


Joaquim Pessoa

A nudez do teu corpo
é ideia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
ressuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.

Ademir Antonio Bacca



Se todas as tuas noites fossem minhas
Eu te daria, a cada dia
Uma pequena caixa de palavras
Coisa que me foi dada, sigilosa



E com a dádiva nas mãos tu poderias
Compor incendiado a tua canção
E fazer de mim mesma, melodia.


Se todos os teus dias fossem meus
Eu te daria, a cada noite
O meu tempo lunar, transfigurado e rubro
E agudo se faria o gozo teu.

Hilda Hilst

Eu te amo



Eu te amo cada vez que eu respiro,
eu te amo em cada verso que transpiro.

Eu te amo na palavra estridente,
na não-dita, na pensada, ou reticente.

Eu te amo em cada canto e momento,
meu amor por ti transcende espaço e tempo.

Eu te amo no silêncio e no meu grito,
eu te amo na molécula e no infinito.

Eu te amo neste instante em que escrevo,
eu te amo até sabendo que não devo.

Eu te amo como a alma que procura
sua alma, na razão, ou na loucura.



Eu te amo como quem rasga a lei
e caminha sem país, sem credo, ou grei.

Eu te amo sem medir as conseqüências,
eu te amo além de mim e da decência.

Eu te amo como quem faz oração.
Eu te amo em confissão e em segredo.
Eu te amo vinte e quatro horas diárias.
Eu te amo num estado além da ânsia.

Eu te amo quando digo que te amo,
eu te amo, como agora. Eu te amo.

Eu te amo, eu te amo, eu te amo.
Eu te amo, eu te amo,

Eu
Te
Amo.


Antoniel Campos

A um sorriso



A minha dúvida é olhar-te, ou
olhar para a tua imagem no espelho; e não sei
se escolherei a mulher real, que pousa
os braços no móvel enquanto espera que
lhe tirem o retrato, ou essa que o espelho
reflete, e ali irá ficar, muito depois
de te ires embora, cansada da pose a
que o fotógrafo te obrigou. É que a mulher
do espelho é aquela que habita um espaço
que não tem tempo nem mundo; a que vive
enquanto a luz o permitir; e quando a sala
ficar às escuras, mantém a vigília de uma
eterna insônia. E vejo-te em todos os espelhos,
a sombra de quem por eles passou, para
que o efêmero permaneça, e o teu sorriso
não desapareça.


Nuno Júdice



aqui
sentada
sentida
sem ti
sinto-me
sem sentido

Marilda Confortin


pagamento


Amor
com
amor
se
paga,
que
sai
mais
barato


Paulo Leminski