domingo, 3 de agosto de 2014



Pudesse eu morrer hoje como tu me morreste nessa noite — 
e deitar-me na terra; e ter uma cama de pedra branca e 
um cobertor de estrelas; e não ouvir senão o rumor das ervas 
que despontam de noite, e os passos diminutos dos insectos, 
e o canto do vento nos ciprestes; e não ter medo das sombras, 
nem das aves negras nos meus braços de mármore, 
nem de te ter perdido — não ter medo de nada. Pudesse 

eu fechar os olhos neste instante e esquecer-me de tudo — 
das tuas mãos tão frias quando estendi as minhas nessa noite; 
de não teres dito a única palavra que me faria salvar-te, mesmo 
deixando que eu perguntasse tudo; de teres insultado a vida 
e chamado pela morte para me mostrares que o teu corpo
já tinha desistido, que ias matar-te em mim e que era 
tarde para eu pensar em devolver-te os dias que roubara. Pudesse 

eu cair num sono gelado como o teu e deixar de sentir a dor, 
a dor incomparável de te ver acordado em tudo o que escrevi — 
porque foi pelo poema que me amaste, o poema foi sempre 
o que valeu a pena (o mais eram os gestos que não cabiam 
nas mãos, os morangos a que o verão obrigou); e pudesse 

eu deixar de escrever nesta manhã, o dia treme na linha 
dos telhados, a vida hesita tanto, e pudesse eu morrer, 
mas ouço-te a respirar no meu poema. 


Maria do Rosário Pedreira